Arquivo da tag: Dia Mundial sem Carro

Dia Sem Carro em Paris: uma iniciativa cidadã frustrada pela gestão pública municipal

Em um momento chave dentro dos preparativos para a Conferência das Partes sobre o Clima (COP21), que acontecerá em Paris em dezembro de 2016, a prefeita da cidade, Anne Hidalgo, organizou pela primeira vez a edição do “Dia Sem Carro”, no último dia 27 de setembro (domingo). O objetivo do evento era “sensibilizar a população sobre os problemas ligados à poluição e às mudanças climáticas”, segundo Hidalgo.

Como parte do evento, várias partes da capital francesa foram fechadas à circulação motorizada entre 11h da manhã e 18h. Estas zonas, concentradas principalmente nos quatro primeiros “arrondissements” (uma espécie de conjunto de bairros) e também alguns pontos estratégicos como os arredores da Torre Eiffel, o Montmartre e a avenida Campos Elísoos (Champs-Élysées). Da mesma forma, foi restringida a circulação em parques e jardins urbanos que já possuíam prioridade aos pedestres. À exceção ficaram os taxis, transporte coletivo, serviços de emergência e pequenos veículos de abastecimento logístico. Igualmente, foi permitida a circulação de cidadãos que requereram usar o automóvel por motivos justificados (saúde, mudança, etc).

Nas demais áreas da cidade, os motoristas foram convidados a deixarem o carro em casa ou a circular abaixo de 20km/h.

Para garantir o bom funcionamento do programa Dia Sem Carro,foram deslocados 200 agentes da Prefeitura de Política e 75 agentes da segurança de Paris, além de 200 voluntários.

Mapa

Mapa oficial do “Dia Sem Carro” de Paris. Em verde escuro, as zonas onde a circulação dos automóveis foi proibida. Em verde claro, as zonas onde os motoristas foram convidados a circular a 20km/h.

A iniciativa, que foi apresentada aos meios de comunicação como projeto das autoridades públicas da cidade, foi, na verdade, promovida pelo coletivo “Paris sans voitures” (Paris sem Carros). Durante a organização do Festival de Utopias Concretas de 2014, um grupo de pessoas começou a imaginar como seria um dia sem carros em toda a capital francesa, que tem sido fortemente afetada pela poluição atmosférica e sonora. Mariella Eripret, integrante do coletivo, relembra que eles viam essa possibilidade como algo irreal, algo que “nunca seria possível de levar adiante na capital”. No entanto, apesar de acharem impossível o projeto, os membros do coletivo começaram a promover uma petição para solicitar às autoridades de Paris que o considerassem para setembro de 2015.

A petição foi criada por várias pessoas, entre as quais alguns cientistas reconhecidos na França pelo trabalho com meio ambiente, e enviada em agosto de 2014 para a prefeitura. O coletivo entrou rapidamente em contato com o adjunto da prefeitura de Paris responsável pelo trânsito, espaços públicos, deslocamentos, Christophe Najdovski, que se mostrou entusiasta da proposta.

O projeto original apresentado pelo coletivo contemplava a proibição de circulação em toda a cidade: “não queríamos que fosse apenas nos ‘bairros’ mais ricos e turísticos, que sempre são os mais privilegiados e onde se implementam as boas iniciativas’, comenta Mariella “os bairros mais populares seguiriam prejudicados pela circulação motorizada”, conclui ela. Insatisfeitos com a decisão da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, de restringir a circulação unicamente em um perímetro limitado, o coletivo “Paris san voitures” decidi então convidar a população a levar adiante mobilizações em zonas não incluídas no plano proposto pelas autoridades da cidade. Por essa razão, Mariella insiste: “para nós é importante que a população saiba que as ações do coletivo e as do governo no Dia Mundial Sem Carro são coisas completamente diferentes. Nós sempre defendemos um Dia Sem Carro em toda Paris”. Dessa forma, apesar do projeto ter surgido de uma iniciativa cidadã, o coletivo entendeu que o o Dia Sem Carro não saiu como previsto. Para eles e outros coletivos locais, a prefeitura de Paris deveria ter negociado mais seriamente com a Prefeitura de Polícia para aplicar o Dia Sem Carro em toda a cidade.

Entenda melhor

Paris, por ser a capital do país e ter vários prédios ministeriais do governo nacional, é a única cidade francesa que o controle da circulação de automóveis está nas mãos da Prefeitura de Polícia (que não é o mesmo que Prefeitura para nós brasileiros) e não do governo local (prefeita – Anne Hidalgo). Portanto, a Prefeitura de Polícia teve a última palavra sobre o assunto.

Voltando ao cerne do assunto

Também insatisfeitos com o resultado, o coletivo “Vélorution” realizou uma ação no mesmo domingo (27) na Praça da Concórdia, lugar onde estava a prefeitura Anne Higaldo e os prefeitos de Bruxelas, Bristol e São Paulo para inaugurar o Dia Sem Carro.

Dezenas de ciclistas chegaram até a Praça e começaram a gritar “Quando será o verdadeiro dia sem carros?”, mostrando o descontentamento com a proposta levada adiante unilateralmente pela prefeitura da cidade e que não levou em conta as petições cidadãs. “Este dia sem carro é uma ação de marketing público”, disse Jerôme, integrante da Vélorution há oito anos. Ele também menciona que se trata unicamente de uma operação de marketing urbano que deixa de lado a maior parte do território parisiense, que está limitada a poucas horas e não ao dia todo e, também, foi realizada em um domingo (dia onde já há poucos carros na cidade), o que faz perder a essência do Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro) que caiu numa terça-feira. Em razão do dia 22, o coletivo realiza uma pedalada (Massa Crítica) pela cidade. Este ano, a Massa Crítica buscou, além de tudo, ser uma ação contestatória e de distanciamento com as autoridades.

DSC_0572

Membros da Vélorution se preparando para pedalar até a Praça da Concórdia no dia 27 de setembro

DSC_0557

O coletivo Vélorution ‘hackeando’ os folhetos do governo. “27 de setembro: Paris Dia Sem Carro” se converteu em “27 de setembro: Paris dia com muitos carros”.

No entanto, o “Dia Sem Carro parisiense” não estevem abaixo somente das expectativas de grupos e coletivos de ciclistas, mas também de representantes dos governos de alguns arrondissement da cidade. Por exemplo, antes do evento, os representantes do 19º arrondissement solicitaram por meio de um ofício a sua inclusão geográfica no Dia Sem Carro. No documento, eles questionaram a seleção das áreas indicando que aquelas que estavam excluídas são as que o impacto da poluição atmosférica é mais notório, porque eles se integram aos problemas  sociais, como a marginalização.

O Dia Sem Carro deixou um gosto ruim na boca de vários coletivos, cidadãos e inclusive de funcionários públicos. Para eles, Paris não teve um Dia Sem Carro, senão unicamente 10.5km² de sua extensão os quais era proibida a circulação automotiva. Essa área corresponde a 10% da cidade. Fica no ar a pergunta: “Como seria um verdadeiro “Dia Sem Carro”? Um dia como o que se passa em Bruxelas há 15 anos, respondem todos as pessoas entrevistadas durante o evento. Em sua 15ª edição, realizada pelo governo de Bruxelas no dia 20 de setembro de 2015, a proibição de circulação motorizada se estendeu por toda a capital belga (equivalente a 161km² livres de automóveis). Ou seja, 16 vezes mais do que em Paris.

Apesar da desilusão que os coletivos de ciclistas expressaram sobre o planejamento, organização e desenvolvimento do Dia Sem Carro em Paris, a maioria ressaltou a alegria que sentiram ao ver tantas pessoas reunidas na Praça da República no dia 27 de setembro para participar das atividades cidadãs promovidas pela Associação Alternativa. O objetivo para o próximo ano é fazer com que as críticas e opiniões cidadãs sejam ouvidas pelos gestores públicos para que a segunda edição do Dia Sem Carro se realize em todo o território da capital francesa.

Traduzido de http://labrujula.nexos.com.mx/.

Anúncios
Etiquetado , , , ,

Mais um Dia Mundial sem Carro vem aí…e com ele mais 5440 carros nas ruas do Brasil

Boa parte das cidades do Brasil têm experimentado, cada dia mais, o cerceamento do direito de ir e vir das pessoas pelos espaços públicos. Isso, em âmbito municipal e regional, advém, dentre outros fatores, da falta de planejamento territorial, do sucateamento e privatização dos transporte coletivos e da incapacidade dos gestores públicos criar sistemas integrados de mobilidade com prioridade aos transportes à propulsão humana e coletivos. Em esfera federal, dos incentivos do governo para aquisição de veículos automotores individuais que colocaram, de junho a julho de 2015, 163.226 novos carros (automóveis, para os legalistas) nas ruas do Brasil, segundo dados do Denatran. Isso equivale a 5.441 carros por dia Brasil afora. O país tem 5.561 municípios. É quase um carro novo por dia por município.

Um recorte geográfico: atualmente, BH conta com uma média de 2,39 habitantes para cada automóvel. Se a soma for de todos os veículos motorizados, esse número caí para 1,66 habitantes por veículo. Por mais que esses números nos levem a crer que a quantidade de carros é responsável por levar muita gente e que eles são maioria nas ruas, isso não é verdade. O trânsito, o caos e as infindáveis horas do rush nos dão a falsa sensação de que a maioria de nós se locomove de carro. No entanto, os automóveis individuais ocupam, claro, a maior parte do espaço público e, em contrapartida, levam uma quantidade muito menor de pessoas do que o transporte coletivo e os à propulsão humana (deslocamento a pé + bicicleta).

Esse contexto sombrio da (i)mobilidade urbana perpassa os problemas gerados nas ruas. As principais causas de morte entre os jovens europeus dos 15 aos 24 anos são 1) acidentes de carro, 2) suicídio e 3) câncer. Uma análise, mesmo que superficial, consegue identificar essas três causas de morte como consequências de uma sociedade capitalista de consumo, na qual a busca pela saciação material é infinita e, na incapacidade de achar o que se procura, dar-se fim à vida. É a sociedade do consumo consumindo a própria vida humana. No Brasil, são mais de 50 mil mortes/ano em acidentes de carro e o principal fator que mata no país são as doenças cerebrovasculares.

O carro, símbolo máximo dessa sociedade individualista burguesa, é uma espécie de materialização da procura pela autonomia e independência individual perante o coletivo.Através do uso de (muuuita) energia cada vez que usa-se o carro, o indivíduo sente-se potencialmente capaz de se deslocar no tempo e no espaço, o que gera a expectativa do carro ser um instrumento capaz de alterar a realidade de quem o guia.. Compreendido como o controle remoto da própria vida, esse dispositivo dá a impressão de ordem e de liberdade. Todavia, essa impressão de estar no controle é exatamente o que submete as pessoas ao status quo, à ordem constituída e à não contestação e à revolução.Uma vez que esse sistema nos aliena e nos faz crer que só há uma única saída, como escolher outro caminho?

Um ponto de ruptura foi atingido com as manifestações que iniciaram em Porto Alegre, ganharam fôlego em São Paulo, com o Movimento Passe Livre, e tomaram as ruas do país: o direito ao transporte coletivo eficaz e barato (ou, no limite, de graça — Tarifa Zero).

A exclusão social surge a partir do momento em que se cobra um valor específico para que pessoas gozem do seu direito de ir e vir pela cidade. Somente a parcela da população que detém aquele valor específico é que terá acesso direto ao transporte que, pelo óbvio, não é público, embora seja coletivo.

Nessa conjuntura, somente os que têm acesso à tração motora é que têm acesso ao ir e vir, ou seja, o que era para ser um direito passa a ser um privilégio de uma parcela específica da população. Com isso, o cidadão que não tiver esse privilégio, que lhe dá acesso à cidade, tornar-se-á prisioneiro de um universo autoalienante: trabalho, casa, televisão, cama, trabalho e assim o ciclo se (retro)ali[m]en[t]a.

O modelo de cidade baseado no sistema rodoviarista, ou seja, no fluxo de veículos motorizados, é incapaz de compreender a circulação de pessoas pelos espaços públicos e por exclui o indivíduo. As cidades são, comumente, espaços dados e com pouca capacidade de expansão de seus limites geográficos. Dessa feita, a luta pela oferta de outros meios de locomoção, seja o transporte de massa, os bondes rápidos, os BRTs ou os transportes à propulsão humana (não motorizados) passa, necessariamente, pela limitação e/ou proibição da circulação dos carros por pontos da cidade (ou por ela inteira). No limite, por menos carros circulando pelos espaços públicos. Ou seja, por um novo contrato social que envolve, indiscriminadamente, o rearranjo do ambiente urbano.

Kirk-bouchon-voiture-bus

Em oposição a esse desenvolvimento urbano, baseado nas mecanização das vias, tem-se as cidades com planejamento orientado às pessoas, que oferecem condições seguras para que qualquer cidadão possa se deslocar por ela a pé, de bicicleta, de patins, skate…Essa oposição tem sido, nas últimas décadas, fortemente representada pela a bicicleta, uma ferramenta que outrora representou a ruptura com o modelo de produção e consumo instituídos pelo capital e alimentado pela grande imprensa [e publicitários bem pagos].

Todas as cidades do mundo têm fatores limitantes, sejam físicos ou sócio-culturais, para a utilização da bicicleta. Tampouco há uma tipologia de ciclista ideal. O cidadão que quiser utilizar a bicicleta como seu veículo terá de se adaptar às condições não variáveis de sua localidade e pode ajudar na construção de uma nova cidade mais próxima daquilo que ele anceia. Pelo direito à mobilidade urbana e à cidade, faça parte do (tod[O]) Dia Mundial Sem Carro!

ps: ao longo dos últimos anos, inúmeras têm sido as tentativas de diminuir o espírito e a importância do Dia Mundial sem Carro (22/9). Exemplos:a adoção de não mais um dia sem carro, mas de uma semana ou mês da mobilidade, o qual o carro também pode participar, é um processo que demonstra a luta da indústria de se incluir até onde mesmo é negada sua participação. Outros dirão: mas o “futuro é a intermodalidade”. A construção de um novo modelo de sociedade passa, necessariamente, pela promoção de algo, mas, além disso, é fator preponderante nesse mesmo processo a negação para a mudança de uma cultura. Digamos NÃO aos carro, seja um, dois ou 365 dias por ano. No centro, na periferia e nas inúmeras possibilidades existentes no interregno de ambos.

Outro exemplo claro de desmobilização é a mudança da organização das atividades para um outro dia que não O Dia Mundial sem Carro (22/9).

Como em todos os anos, o Dia Mundial sem Carro será 22 de setembro, uma terça-feira. Todo mundo, numa escala planetária, está convidado a se livrar do carro, caso o tenha (como posse ou acesso).

unnamed

Etiquetado ,
Anúncios