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Menos uma vaga, muito mais espaço!

O Planejamento urbano é um instrumento fundamental para que gestores públicos, população e os demais atores sociais compreendam e busquem respostas a uma pergunta complexa e que não possui resposta pronta: que cidade queremos?

Uma outra pergunta que ajuda a encontrar resposta àquela primeira é: como utilizamos o espaço público?

Em uma vaga para carros, por exemplo, estacionam, quando muito, cerca de 40 carros/dia. Em média, cada carro tem não mais que duas pessoas. Numa matemática simples: 80 pessoas usarão um espaço público ao longo de um dia [movimentado].

Isso é muito? Pouco não é, mas e se pudéssemos ir além, aumentar o uso desse espaço em até 400% e qualificá-lo?

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Foto: ActivaValdivia

O uso de uma vaga para carros implica em, no mínimo: poluição visual, sonora, do ar e na limitação da utilização para pessoas que possuem um carro. Ou seja, de pronto, menores de 18 anos, que correspondem a 33% da população, no Brasil, não poderiam fazer uso do espaço. Uma vaga de carro é realmente pública? Ou ela utiliza-se do espaço público para privilegiar uma porção da sociedade que detém um atributo específico (o carro, no caso)?

Foto: ActivaValdivia

Foto: ActivaValdivia

Em Valdivia, no Chile, como parte do Plano de Ativações do Espaço Público, gerido por um Consórcio chamado Valdivia Sustentable, foi inaugurado o primeiro MiniParque da cidade, no lugar de uma vaga de carro. Com essa pequena alteração no espaço público, Valdivia permitiu que qualquer cidadão, de todas as idades, possa desfrutar do seu direito à cidade. Além, o município chileno qualificou o uso deste espaço público, quando inseriu árvores, locais para se sentar e bicicletários, e quantificou, por conta da universalização do acesso a ele.

O MiniParque ainda é um projeto temporário e está recebendo, in loco, avaliações dos cidadãos que passam por ali. Caso elas sejam positivas em sua maioria ao longo de dois meses, o espaço será definitivo e outras iniciativas semelhantes terão o objetivo de menos vagas, mais espaços.

Imagens da construção do MiniParque.

Facebook e Twitter do Consório.

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Os sistemas de bicicletas compartilhadas do Brasil são…

..piores que o de Santiago, no Chile, ainda que tenham o mesmo patrocinador.

Chamado de Bike Santiago, ele está funcionando há algum tempo e no próximo dia 10/12/2014 se conectará entre as communes (regiões) de Santiago. Curiosa a atuação internacional do banco, mas compreensível: é um banco que atua por aí e quer ser um banco em mais lugares. Simples.

Mas, o ponto alto da coisa é o nível do sistema e das bicicletas de lá! O recalque bateu aqui em mim e ficou!

O projeto tem como meta implementar 2.100 bicicletas em 140 estações passando por 14 communes (regiões). Um comparativo: em Belo Horizonte, serão 400 bicicletas, 40 estações e duas regiões que não se conectam atendidas pelo sistema. O sistema chileno será totalmente implementado em 4 meses (até março de 2015). Outra comparação: Belo Horizonte, que terá um sistema cinco vezes menor, está com quase seis meses de implantação e ainda não está pronto.

Fazendo uma conta rápida, é possível notar que eles terão cerca de 15 bicicletas por estação. Por si só, esse dado não quer dizer nada. Analisando o site do Bike Santiago, não encontrei a quantidade de vagas por estação o sistema terá. Esse dado é fundamental para entender qual o coeficiente de preenchimento (vagas/bicicletas) será utilizado pelo sistema. Belo Horizonte, por exemplo, utiliza 1,2 vagas por bicicletas. Os manuais de compartilhadas indicam que esse coeficiente precisa estar entre 2 a 2,5 vagas por bicicleta, para evitar problemas com excesso de bicicletas nas estações.

Olhando o mapa das estações, percebe-se que o sistema chileno prezou pela densidade na instalação das estações. Ou seja, eles optaram por colocar muitas estações em um território pequeno. Isso é importante para possibilitar que as pessoas sempre tenham bicicletas à disposição.

Lá, se você for cliente do banco laranja, você receberá alguns mimos: mais minutos para pedalar ‘de graça’ e os custos para se inscrever são um pouco mais baixos para quem já possui uma conta no dito cujo.

Longe de parecerem os sistemas implementados no Brasil, as de Santigo possuem:
– GPS
– Cadeado fixo à bicicleta
– Cestinha dianteira em ferro
– Freio à disco em ambas as rodas
– Luz dianteira e traseira em LED
– Quadro e o aro melhores que os brasileiros.
 
Há alguns outros detalhes que chamam atenção e relembram os sistemas de bicicletas compartilhadas da Ásia e Europa (que são reconhecidamente superiores aos recém implantados no Brasil).
Sem título

Arte retirada do Twitter @bikesantiago

Desde o final do ano passado, o sistema já vem sendo promovido nas redes sociais e criando uma relação amigável com seu público-alvo. Outro fator positivo é o conteúdo das artes publicadas nas redes sociais do sistema: bem feitas e interativas, elas se comunicam com o leitor fazendo uso de especificidades e urbanidades locais que despertam interesse de quem as vê.

Como nas cidades brasileiras, o sistema tem horário de funcionamento limitado. Ele funcionará de 6h30min às 23h para retirada de bicicletas. A utilização de um cartão para retirar as bicicletas e o uso de aplicativo de telefone móvel para informar os usuários sobre a disponibilidade de bicicletas e a localidade das estações é semelhante ao adotado em cidades francesas como Paris e Toulouse.

A estrutura planejada e executada desde o inicio do sistema é superior às do Brasil e esse fato merece a atenção das cidades brasileiras nas quais o sistema de bicicletas compartilhadas está sendo financiado pelo banco e/ou foi planejado e gerido pela Serttel. Que a cidade vizinha, longe do velho continente com seus euros e libras, inspire as brasileiras na busca por melhorias do funcionamento dos nossos sistemas.

A parceria com a Trek, que é a gestora do sistema, aparenta ter sido fundamental para essa elavação no padrão da infraestrutura do serviço oferecido. Essa diferença de nível parece estar mais em quem recebe o dinheiro do tal banco do que em quem paga a conta de fato…

Todas essas informações estão disponíveis pelo site http://www.bikesantiago.cl/ ou pelas sociais alimentadas pelo sistema chileno: Twitter, Facebook e Instagram.

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