Carnaval é momento de celebrar e reivindicar nosso Direito à Cidade

Por Guilherme Tampieri
O carnaval é momento de ampliarmos, na prática, na convivência diária, nosso entendimento sobre direito à cidade. Sobre a cidade em si. E que delícia podermos viver anualmente esse ciclo cultural, artístico, de tradições periféricas, de vida comunitária.
 
Na origem, o Carnaval era para as elites, em salões e outros locais fechados. Por outro lado, pessoas excluídas destes espaços (quase todo mundo!!!) criavam festas improvisadas, com alegria, resistência e ocupação de inúmeros territórios das cidades.
 
Em BH, o Carnaval renasce na década de 2000, a partir do desejo de movimentos sociais de reclamarem as ruas, ocupando o espaço público com espontaneidade, festa e muita, muita política.
 
Naquele momento, partia-se para a ruptura da lógica de que as ruas eram apenas um lugar de passagem, ordem, silêncio e automóveis. A rua, então, passava a ser palco da ocupação, da política, da festa e, sobretudo, da manifestação democrática da cultura presente e passada. Ela passa a ser o ambiente mais democrático que temos, embora ainda bastante desigual.
 
É preciso fazer um parêntese: a obstrução da vias não pode ser considerada um motivo legítimo para repressão policial, como vimos em alguns casos em BH. O direito de ir e vir, previsto na nossa Constituição, tem o mesmo peso legal do direito à liberdade de reunião, e do direito à liberdade de expressão.
 
Cabe ao Estado a conciliação entre os dois direitos, e não a sobreposição de um pelo outro. E aqui deixo minha admiração ao trabalho da Prefeitura de Belo Horizonte de ter conseguido manter a vida cotidiana com o mínimo de conflitos possível. Beagá não parou, ao contrário do que alguns críticos diziam.
 
Deixo também a minha crítica sobre a apropriação do carnaval por grandes empresas. A gente precisa delas, por ora. Fato. No entanto, outras regras podem ser postas, para garantir que as coisas fluam com maior suavidade. Nesse sentido, ressalto, por exemplo, como catadores e catadoras tiveram um papel fundamental para a cidade não ser tomada por toneladas de resíduos, embora a contratação deles tenha sido de última hora, emergencial e injusta (com eles e elas).
 
Voltando… produção do espaço urbano é uma construção social e coletiva, e que expressa as desigualdades e opressões existentes aqui, agora, fruto de ontem e de hoje.
 
E o Carnaval transborda as desigualdades de BH de inúmeras formas. E isso pode ser bom, se captarmos parte destas desigualdades e nos entendermos como sujeitos capazes de contribuir para uma ressignificação da cidade, buscando e lutando para que nossos territórios sejam menos desiguais, mais democráticos, menos injustos, mais sustentáveis.
 
Durante o carnaval, espontânea (tomara) ou forçosamente (que seja!), estamos mais abertos e abertas ao próximo, à diversidade, às inúmeras formas de amor que – todas elas – valem a pena.
 
No Carnaval, a cidade, (re-co)produzida por nós e pelas nossas relações com o outro, incluindo, em especial, aqueles que lutaram para que o carnaval ganhasse espaço em BH laaaa atrás até hoje, nos convida a olharmos para ela de uma outra forma. Ou de muitas formas, com várias lentes.
 
Lembrando a cidade de Fedora, do clássico Cidades Invisíveis, de Ítalo Canvino:
 
“No centro de Fedora, metrópole de pedra cinzenta, há um palácio de metal com uma esfera de vidro em cada cômodo. Dentro de cada esfera vê-se uma cidade azul que é o modelo para uma outra Fedora. São as formas que a cidade teria podido tomar se, por uma razão ou por outra, não tivesse se tornado o que é atualmente.”
 
No Carnaval, quem está na rua se dispõe a olhar para as esferas de vidro e, em algum grau, a joga-las no chão, liberando-as, vivendo-as, repensando e reinventando o espaço público.
 
Qual esfera de Fedora você liberou neste Carnaval?
 

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