A tragédia anunciada tem, sim, responsáveis

Por Guilherme Tampieri

O momento é trágico em BH.

A solidariedade e a ética precisam estar em primeiro lugar, para evitarmos casuísmos e análises pouco prudentes ao momento.

Na tentativa de dar uma contribuição analítica, trago aqui algumas informações que servem a (i) quem se interessa em debater a nossa cidade e (ii) a quem acredita nas mudanças climáticas.

Partindo desses dois princípios, apresento uma narrativa para dar luz a uma questão que me é carrísima: as mudanças climáticas e os possíveis impactos delas no nosso dia a dia.

Sou da linha que entende que elas trarão os maiores desafios do século XXI. Não superando-os, estamos fadados a sucumbirmos, como sociedade, de diversas formas, especialmente os mais pobres, que têm menos acesso a instrumentos individuais para reduzir os danos causados pelos efeitos das mudanças do clima.

Aqui, falarei de dois deles – que estão estampados na capa de todos os jornais locais de hoje (25/1), inundações e deslizamentos, e que, sim, têm responsabilidades!

Para ilustrar, de um lado, quem tem pouco mais de 30 anos lembrará do caso do deslizamento no Morro das Pedras em 2003 que tirou a vida de seis irmãos e três primos, destruindo para sempre uma família.

Do outro, as constantes inundações, em especial a da Avenida Vilarinho, principal via de acesso da
Regional Venda Nova, que atingiu centenas de pessoas e deu prejuízos na ordem de dois milhões de reais aos cofres públicos, com uma chuva de 40 minutos.

Beagá está localizada em uma região em que o clima e as futuras consequências de suas mudanças estão divididos em dois grandes eixos, segundo estudos municipais: Norte e Sul.

Sendo assim, existe uma tendência geral em que a porção Norte se apresente mais impactada por aumentos de temperatura do que a região Sul, o que favorece principalmente as ocorrências de dengue e de ondas de calor (dois impactos possíveis da mudança do clima e que não falarei aqui). O eixo Sul, por sua vez, apresenta maior
sensibilidade aos deslizamentos. As inundações, no entanto, apresentam-se de forma distribuída por todo o município, pela capilaridade dos mais de 700 km de cursos d’água da capital mineira, variando de intensidade de acordo com as características das sub-bacias e da intensidade e frequência de chuvas.

Belo Horizonte, felizmente, tem pessoas de altíssima capacidade em todas as secretarias e uma rede de instituições parceiras que nos ajudam a compreender melhor a situação da cidade em diversas áreas, como por exemplo na saúde, mobilidade e mudanças climáticas, a partir de dados, indicadores e informações qualitativas.

A partir daí, dessa compreensão ampla e intersetorial, temos condições de pensar respostas a estas consequências da mudança do clima na nossa cidade. Mas aí entra uma questão… Estamos dando estas respostas? Não com a urgência que precisaríamos.

Em 2016, a cidade publicou um estudo chamado ANÁLISE DE VULNERABILIDADE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS DO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE que tinha como objetivo dar luz à nossa vulnerabilidade às mudanças climáticas, considerando o cenário em 2016 e as projeções para o ano de 2030, a partir de uma metodologia
utilizada pelo IPCC, grupo de especialistas internacionais que estudam a climatologia.

Ele mostrava que as regionais administrativas mais vulneráveis à inundação são: Nordeste, Leste, Centro-Sul e Norte.

Outra informação que ele traz é que de 2016 a 2030, de modo geral, haverá um aumento da exposição às inundações ao longo do Município e que tais eventos tenderiam a ser mais intensos, com maior volume de chuva concentrada e com maior propensão à geração de danos e impactos que vão desde os mais simples, como fechamento temporário de vias, aos mais complexos e doloridos, como a perda de vidas.

A capacidade da resposta da cidade envolve a imediata melhoria das condições de infraestrutura, sistemas de alerta e obras de macrodrenagem para redução de inundações, indicava o estudo.

Deste lado, o que temos feito? A prefeitura tem feito limpeza de bocas de lobo, de fundos de vales de córregos a construções de grandes bacias de retenção e detenção de águas pluviais.

Lembrando, o ciclo previsto pelo estudo da Prefeitura nos indica que haverá mais chuvas e que elas serão mais intensas. Nesse sentido, as bacias de retenção e detenção jamais serão suficientes. Recursos gastos num looping que pode não ter fim.

Falando em looping sem fim, BH adotou um modelo de urbanização focado no espraiamento urbano, desde sua origem. Que diabos é isso? É quando a cidade vai crescendo para todo canto possível. Para se locomover nessa cidade, as pessoas carecem da veículos motorizados, uma vez que as distâncias percorridas são cada vez maiores. O transporte coletivo, por sua vez, vai ficando mais caro e ineficiente (R$4,50!!!). As pessoas, assim que podem, migram para o automóvel ou motocicleta. Quem não pode mais pagar, deixa de circular e acessar as oportunidades da cidade ou utiliza bicicleta, caronas ou vai a pé. Ou, como trouxe a tese de doutorado de Marcelo Cintra do Amaral, as pessoas buscam morar mais próximo destas oportunidades de trabalho, estudo, lazer, saúde, etc, e economizam gastos com o carrísimo transporte coletivo.

Assim, com mais gente circulando nos automóveis, aumenta-se a pressão para criação de novas vias – que jamais darão conta do aumento do fluxo de veículos. Constroi-se novas vias para todo lado, inclusive em cima dos nossos cursos d’água, mais viadutos e trincheiras e também as famosas avenidas sanitárias.

De qual material são feitas estás obras? Concreto, asfalto, cimento. Os três impermeabilizam o solo, impedindo a água da chuva de adentrar a terra. A consequência é a chuva bater no solo e escorrer mais rápido e, assim, mais forte, em busca de um curso d’água. Seguindo… Quando tamponarmos e canalizamos os cursos d’água para eles virarem esgoto ou serem sufocados por asfalto, intensificamos essa lógica da velocidade e força.

Voltando dois parágrafos, falemos da pauta das moradias.

Para começar, por gentileza, se já não o fez, se desprenda do desejo de criticar quem ocupou um terreno vazio ou comprou uma casinha numa encosta. As pessoas precisam morar. E elas farão o que for preciso para ter um teto que as proteja das chuvas, que as guarde do vento, do frio, do sol. Que as garanta, ainda que com dificuldades, um mínimo de intimidade, de liberdade. Um lugar para chamar de “seu”.

A porção do município localizada no limite do Quadrilátero Ferrífero (Sul de Belo Horizonte, Serra do Curral e Rola Moça) apresenta alta vulnerabilidade influenciada pela declividade e geologia. É ali que está o Novo São Lucas, o Morro das Pedras.

No que diz respeito aos deslizamentos, o estudo da Prefeitura indica que o fenômeno é infuenciado por questões distintas entre as regionais, mas as consequências são sempre devastadoras e muitas vezes fatais, como o caso de 2003 e 2020.

A cidade funciona como um organismo conectado. As questões de moradia estão diretamente ligada às de mobilidade, que se conectam à educação, que estão infinitamente ligadas às de saúde, que são influenciadas pelo saneamento básico, que tem tudo a ver com os resíduos sólidos, que são a terceira fonte de emissões de gases causadores do efeito estufa em BH, que são os causadores das mudanças do clima. E tudo isso se liga de outras formas, com outras conexões mais complexas.

O modelo de cidade que a gente vive é uma escolha feita por pessoas como você e eu, mas sobretudo pelos setores imobiliários, as grandes construtoras de obras viárias, as empresas que lidam com resíduos sólidos, shoppings, associações de bairros, movimentos sociais, entre outros tantos grupos. No entanto, essas vozes não ressoam de forma equânime.

A escolha de quais vozes ouvir, em BH, tem sido feita nos últimos anos, majoritariamente, para atender aos interesses de quem pouco se importa com a vida da cidade, mas tão somente com quantas toneladas a mais de concreto jogaremos no nosso solo, sem se preocupar com as consequências disso. Afinal, a destruição traz a necessidade de uma reconstrução, que gera capital para grupos específicos.

Seguindo o fluxo padrão, infelizmente, a atual prefeitura quer dar sequência para uma série de obras que seguem essa lógica perversa de abrir mais vias com o discurso técnico de que “é preciso aumentar a capacidade viária para, assim, melhorar a fluidez dos automóveis.” As obras são: dois viadutos e uma trincheira na altura do Shopping Estação.

BH não precisa de mais vias enormes. BH precisa de criatividade para pensar soluções realmente efetivas e duradouras; de espaços de deliberação que contém com presença, coragem e sabedoria das pessoas que enfrentam enormes problemas diários; BH precisa de lembrar da sua história e parar de cometer os mesmos erros de sempre; BH precisa fazer novas perguntas a si mesma e criar respostas coletivas, criadas colaborativamente, capazes de respeitar nosso passado, entender nosso presente e mudar os rumos do seu, do nosso futuro.

Sim, Kalil, você, dentre muitas pessoas, é coresponsável pela cidade. Responsabilidade não quer dizer culpa, mas obrigação de agir. Agora.


 

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