E se, de repente, todo mundo usasse bicicleta?

Mais uma edição do Dia Mundial Sem Carro (22/9) vem aí e traz consigo uma série de reflexões. Ou não. Entendo que esse processo de reavaliação das formas e modos de se deslocar na cidade é muito mais institucional, por meio de organizações que vêm trabalhando com a mobilidade urbana, habitação, mudanças climáticas e com a agenda urbana de forma geral, do que social ou no nível das gestões públicas.

Desconheço no Brasil alguma iniciativa pública que estipulou que no dia 22/9 (ou outro dia qualquer – também valeria no plural) seria proibido o uso do automóvel nas ruas daquela cidade. Sequer, imagino, temos alguma processo que tenha estipulado limites à circulação dos automóveis em áreas específicas e não em todo o território do município X.

O Dia Mundial Sem Carro, também conhecido como DMSC, é um momento não apenas da negação de um instrumento, de uma ferramenta, de toneladas de aço, vidro e petróleo, mas, sobretudo, apresentar críticas e soluções ao atual modelo de desenvolvimento urbano que nossas cidades (brasileiras e de forma generalista) escolheram para si.

Ele é (como todos os dias, mas com mais carga simbólica), uma oportunidade de (re)construir relações sociais. De colocar em voga modelos utópicos que queremos.

Nesse sentido de colocar modelos, reflito: e se de repente todo mundo andasse de bicicleta para ir ao trabalho em BH (ou em qualquer cidade brasileira)?

Quem anda a pé continuará a fazê-lo nesse dia, bem como quem está de patinete e skate. Quem tem carro, deixa ele em casa. Quem tem moto, não usa. Esqueçamos os ônibus. O BRT e o metrô. O taxi e o Uber. Os mais críticos dirão, há quem more há 20km, 30km, 40km do trabalho e andar de bicicleta a essa distância, com a regularidade necessária de um trabalho, é perto do inviável. De acordo. Mas esqueça essa parte. Os mais crítico ainda dirão que esse processo de esquecimento é uma defesa simples para de quem mora perto do trabalho e dos acessos aos serviços e oportunidades das cidades. Completamente de acordo. Todavia, continue a esquecer isso. Lembre-se, tão somente, que trata-se de um mundo utópico. Num vácuo de impossibilidades. Pessoas com deficiência não estão excluídas desse texto. Elas também terão, com ou sem auxílio, a possibilidade de se locomoverem de bicicletas. Cegos usarão tandens (bicicletas ‘biarticuladas’), pessoas paraplégicas terão assentos seguros e auxílio de alguém para pedalar, pessoas com mobilidade reduzida, como as demais, todas as possibilidades de irem seguras em uma bicicleta. Reitero: com ou sem auxílio, a depender da deficiência, dificuldade.

Voltemos à construção dessa narrativa (im)possível, mas que ganhou vida no seu imaginário, a partir do momento em que você se tornou sujeito desse desafio. Dessa quimera.

Ana, sai da sua casa às 8h da manhã, no bairro Santa Efigênia, pedala pela avenida dos Andradas até a Praça da Estação. Ali, ela para para apreciar a fonte que, nesse momento, está ligada. Ana continua seu caminho pela avenida do Contorno, pega a rua Platina. Sem ônibus. Sem carros. Sem poluição sonora. O ar na Platina, pela primeira vez em anos, tem outra cor que não o cinza da fuligem: ele é colorido. Tão colorido quanto a cor de todas as mais de quinhentas bicicletas que Ana cruzou no seu caminho até a avenida Silva Lobo. Dali, ela pedalou até a Barão Homem de Melo, adentrou o Buritis e chegou ao seu trabalho num centro universitário.

Pouco mais de 40 minutos, menos de uma dezena de quilômetros percorridos, muita endorfina produzida e ainda restam 20 minutos antes do horário de trabalho. Ana toma uma água, lava seu rosto, se refresca, pega a camisa que está na mochila e vai dar sua aula para a turma de Relações Internacionais. O tema de hoje? Razões bilaterais de um golpe de Estado no Brasil: a relação entre os Estados Unidos, o pré-sal e o retrocesso democrático em nosso país.

Do outro lado da cidade, Pollyanna acorda às 9h, toma seu café com pão, troca de roupa, dá tchau à sua mãe, sobe na bicicleta, atravessa o beco São José empurrando a bici em meio à criançada que brinca de bola e pedala, monta na magrela e começa seu caminho. Da Gameleira ela cruza a avenida Amazonas, desce para a Tereza Cristina, toma a ciclovia, pensa no quão ruim está o estado daquela ciclovia, mas segue por ela. Polly, como é chamada por todo mundo, segue até o entroncamento entre Tereza Cristina e via Expressa, como tem feito nos últimos três anos, e se indaga: “como essa rotatória é grande, sem carros. Precisamos de usar tanto espaço para pessoas circularem?”. A reflexão ganha mais força dentro dela quando a garota vê não menos que 40 bicicletas e dois patinetes seguindo a via Expressa sentido Centro e aproximadamente 100 pessoas pedalando no sentido Contagem. Operários, com seus uniformes inconfundíveis, mães com suas filhas e filhos nas bicicletas cargueiras, executivas, hippies, casais, idosos e jovens. Todos pedalando livremente pelo mar de concreto e cimento.

Polly segue livre pela rua, dá uma voltinha em torno de si mesma, e pedala em direção à faculdade. Esboça soltar o guidon na curva. Dá certo. Ela, que aprendeu a pedalar desde cedo, sempre teve dificuldades em tirar as duas mãos do guidão. Mal sabia ela que o problema estava na antiga caixa de direção da sua bicicleta.

Hoje é dia de aula prática no curso de engenharia de transportes: visita técnica às ciclovias de Belo Horizonte. Polly está empolgada.

Júnior, morador do São Geraldo, regional Leste de Belo Horizonte, pega sua magrela e sai de casa, como há nove anos, exatamente às 7h para pegar trabalho às 8h na região da Savassi. Ele é garçom de dia e estuda Direito em uma grande faculdade da cidade. Jú, para os íntimos, está com 34 anos e no quinto ano da faculdade. No final do ano, ele formará. Está ansioso pelo exame da OAB, mas a preocupação imediata é mais leve: Qual das duas bicicletas vou para o trabalho hoje?, pensa ele. Recentemente, após a liberação do uso de bicicletas dobráveis nos ônibus da capital mineira e com a possibilidade de expandir isso para a RMBH, Júnior, que tem família em Esmeraldas, adquiriu uma bicicleta dobrável em 10 pagamentos de R$ 180,00. Ele fez as contas e , em um ano, ficaria mais barato pagar a bicicleta dobrável do que gastar com transporte coletivo para ir até a baldeação na sua ida regular para Esmeraldas, além dos rolés de final de semana que ele tem feito com sua dobrável, que tem marchas, e possibilitou ele ir mais longe e conhecer melhor Belo Horizonte. Sua pequena frota agora conta com esse modelo e uma barra-circular, sem marcha. Com marchas, o universo de

Jú saiu de casa às 7h. De dobrável. Seguiu pela rua que mais tem ciclistas em Belo Horizonte. Hoje, especialmente, ele se sentiu em Montes Claros ou Ipatinga, locais onde trabalhou na juventude. Milhares de bicicletas indo e vindo na rua Itaituba. Algumas, pegavam a avenida dos Andradas sentido Silviano Brandão/Centro. Uma quantidade menor de pessoas ia sentido Sabará. Chegando no entroncamento entre Andradas e Contorno, Júnior parou no sinal para esperar o fluxo de bicicletas. Era impossível, dessa vez, avançar o sinal sem comprometer a segurança de quem descia a avenida do Contorno pedalando. O fluxo era inimaginável. Centenas de mães e pais levando seus filhotes para escola, pessoas indo trabalhar, jovens cabritando a magrela em bondes para a escola. Universitários. Júnior pode reconhecer a figura de dois vereadores indo para a Câmara Municipal de Belo Horizonte. Junior seguiu seu caminho pela ciclovia que tem na região até parar na Praça do Ciclista.

Ali, por alguma razão, estava tendo uma feira de ciclistas e patinadores. Bicicletas sendo vendidas em um bazar, pessoas aprendendo a pedalar, sessão de filmes rolando o dia todo, pessoas reparando suas bicicletas na nova estação de reparo autônomo de bicicletas que ali foi instalada por uma tal Associação de Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte. Havia também um café da manhã coletivo. Entregadores passavam pela Praça para tomar café e logo seguiam seus destinos. Hoje era um dia especial para fazer entregar. BH não tinha carros nas ruas. BH não tinha perigo. BH era, pela primeira vez, uma cidade na qual as pessoas não sentiam repulsa do espaço urbano. Do uso comum. Do público. A Praça do ciclista prometia. Júnior pensou “eu passaria o dia aqui, mas preciso trabalhar. De noite eu mato aula e venho para o happy hour com sessão de cinema e bate-papo sobre as eleições 2016 com as 11 candidatas e candidatos à prefeitura!”.

Ele seguiu, enquanto na Praça do Ciclista, lotada, a cultura da bicicleta em Belo Horizonte se fortificava. Pedalou até a região da Savassi. Júnior se recordou que hoje era o dia da inauguração da Savassi e Centro a 30. Ficou contente.  Sabia que era um dia histórico na cidade. Um dia em que as ruas teriam velocidade máxima para os automóveis estipulada a 30km/h. Lembrou-se que leu uma matéria numa revista que dizia que há cidades no mundo que estão limitando, em todo seu território, as velocidades. Se recordou também que esse processo tinha um nome…um conceito. “Qual era mesmo?”…. Hummm…”Desvelocidades!”, gritou baixinho e sorriu. Jú sabia que somente com essa redução de velocidades Belo Horizonte poderia se tornar uma cidade com outros 364 dias parecidos com aquele. Com pessoas pedalando,andando a pé, de skate, de patins, com prioridade. Sendo respeitadas. Sabia também que, mesmo que os automóveis, motos e ônibus circulassem nos outros 364 dias, com a velocidade baixa, as ruas poderiam novamente garantir a segurança das pessoas. As ruas seriam ocupadas por sonhos, desejos, cheiros múltiplos, cores opacas e vivas, sons diversos, diversidade, idosos, crianças brincando de pique pega, pessoas com deficiência. Por quem quisesse experimentás-las de um outro jeito.

Esse foi mais um dia sem carro em Belo Horizonte. Ou parte do dia. De um dia. De alguém.

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“Vemos bicicletas em todos os lugares”

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Um pensamento sobre “E se, de repente, todo mundo usasse bicicleta?

  1. marbhcelo disse:

    Hoje teve lançamento de Manifesto na desveloCIDADE de Detinha… Conheçam: http://www.desvelocidades.red.

    Curtido por 1 pessoa

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